Megaoperação no DF e em 8 estados mira império dos anabolizantes e bloqueia R$ 32 milhões
PCDF desmantela rede criminosa de anabolizantes clandestinos que faturava milhões no DF e em 8 estados. Insumos eram “cozidos” sem higiene
12/08/2026 06:58, atualizado 12/08/2026 11:24
Nas primeiras horas desta quarta-feira (12/8), a Divisão de Defesa do Consumidor da Coordenação de Repressão aos Crimes contra o Consumidor, a Propriedade Imaterial e a Fraudes (Corf), da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), deflagrou a Operação Narciso, considerada a maior ação do ano contra o comércio ilegal de anabolizantes e outras substâncias proibidas no Brasil.
Ao todo, a Justiça expediu 43 mandados de prisão (preventivas e temporárias) e 64 mandados de busca e apreensão, além de determinar o bloqueio e sequestro de R$ 32 milhões em ativos financeiros e a quebra de sigilo bancário de 58 alvos.
O esquema contava com conexões em oito estados, além do DF, e uma ponte direta com a fabricação clandestina no Paraguai. As ações ocorrem nos seguintes estados: Santa Catarina, Acre, São Paulo, Goiás, Rio Grande do Norte, Paraíba, Paraná e Minas Gerais.
A investigação revelou uma complexa engrenagem criminosa voltada à fabricação caseira, ao fornecimento de insumos, à rotulagem, à divulgação e à comercialização de anabolizantes, medicamentos controlados, produtos veterinários e suplementos com substâncias ocultas.
Mais de 20 estabelecimentos comerciais foram lacrados, 10 veículos de luxo apreendidos e mais de 30 sites de venda ilegal acabaram sendo tirados do ar. A organização criminosa contava com a participação de nutricionistas, biomédicos, veterinários, personal trainers e influenciadores digitais.

A apuração
A apuração teve origem na Operação Béquer, desencadeada em fevereiro do ano passado, após busca no apartamento de Carlos Henrique Rodrigues de Abreu. No local, foram apreendidos anabolizantes, insumos, cápsulas, rótulos e dois celulares.
A análise dos aparelhos revelou a fabricação residencial de produtos associados a Fellipe Dias e Felipe Semani, criadores das marcas clandestinas AlphaLabs, Mega Burner e Libid Up, além de expor uma teia de fornecedores, gráficas, motoboys e laboratórios undergrounds como HydraPharmace, Skullredlab, Sypharma, Eurolabs, New Science, GC e Yellow B.
Todos os laboratórios são alvos de mandados de busca, e seus proprietários possuem mandado de prisão preventiva ou temporária expedidos pela Justiça.
Cozimento mortal
De acordo com as investigações conduzidas pelo delegado Rodrigo Carbone, o coração do esquema operava sob o termo “cozimento”: a fabricação artesanal de substâncias injetáveis e orais em fundos de quintal, cozinhas residenciais, depósitos e locais improvisados, em fogo alto e sem qualquer assepsia ou controle sanitário.
Para aumentar o rendimento dos produtos e maximizar os lucros, os criminosos misturavam insumos importados da Índia, da China e do Paraguai a ingredientes altamente perigosos:
Aditivos e veículos: óleo de cozinha comum, além de óleos de semente de uva e de arroz manipulados sem esterilidade;
Substâncias ocultas em rótulos: o termogênico Mega Burner e o produto Yellow B continham substâncias ocultadas do consumidor final, como clembuterol (medicamento veterinário de uso exclusivo para equinos), sibutramina (potente inibidor de apetite), fluoxetina, bupropiona e diuréticos como hidroclorotiazida;
Efeitos deletérios à saúde: a ausência de controle técnico e a contaminação nos processos injetáveis têm provocado reações alérgicas graves, infecções severas e abscessos nos usuários. A viscosidade inadequada e as impurezas dos óleos causam embolias, tromboses e infecções generalizadas (sepse), levando vítimas a óbito — a exemplo do caso recente da morte de uma fisiculturista em Samambaia;
O uso contínuo das substâncias ainda acarreta riscos cardiovasculares, aumento vertiginoso da pressão arterial, AVC, hipertrofia cardíaca e impotência sexual.
Integrantes e estrutura do esquema
Roberto Carlos Pereira de Carvalho, o Jiraiya
André Luiz de Amorim Junqueira
Função: cabeça da organização responsável pelo produto conhecido como “Yellow B” e dominador das técnicas de “cozimento” nos laboratórios undergrounds de São Paulo, Goiás e DF. Atuava também como DJ.
Atuação: com mais de 15 anos no mercado ilícito, mantinha forte ligação com gráficas para produção das embalagens falsas. Operava a lavagem de dinheiro por meio de fracionamento de Pix em casas de apostas (bets).
Residia em condomínio de luxo em Águas Claras e ostentava veículos Porsche, Audi e Mercedes.


