Terras raras em Goiás: exploração pode gerar mais de 12 mil empregos diretos
Exploração de minérios estratégicos em Goiás projeta a criação de mais de 12 mil empregos em duas mineradoras. Empresas de diversos ramos da tecnologia poderão chegar no Estado nos próximos anos.
Por Vinícius Silva, g1 Goiás
07/03/2026 05h01 Atualizado há um dia
A exploração de terras raras em Goiás deve gerar até 12 mil empregos diretos entre cinco e dez anos, segundo estimativas da Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços do Governo de Goiás. As áreas vão desde engenheiros, operadores de máquinas e especialistas em logística. O estado se destaca devido a Minaçu, no norte de Goiás, ser é a única cidade fora da Ásia a produzir em escala comercial quatro elementos essenciais.
Em Goiás, a exploração já começou há três anos. Segundo Joel de Sant’Anna Braga Filho, secretário de Indústria, Comércio e Serviços do Governo de Goiás, atualmente duas mineradoras operam no estado e, quando estiverem em atividade total, podem gerar de 5 a 6 mil empregos diretos cada uma.
Para o secretário, o passo mais importante está ligado ao desenvolvimento da tecnologia, que pode trazer uma cadeia de investimentos e, consequentemente, novos empregos. Joel destaca que hoje uma mineradora gera mais de 2 mil empregos diretos.
“Isso aí é muito importante, porque vai fazer com que Goiás tenha geração de emprego, porque vai trazer investimento para cá em vários setores”, afirma.
Um dos pontos ligados à tecnologia é que serão buscadas empresas dos ramos de data centers, empresas fabricantes de motores e de baterias, por exemplo.
“Poderemos fazer uma troca. A gente exporta terra rara, mas a gente peça que essas empresas invistam aqui em outros setores ligados à tecnologia para fazer com que essa rota tenha um benefício para Goiás”, destaca Joel.
A gerente de projetos estratégicos do setor produtivo da SIC, Lívia Parreira, explica que a cadeia de terras raras é multidisciplinar e envolve uma gama de profissionais atuando em uma etapa estratégica diferente. Entre eles estão:
Geólogos e Geofísicos: Descobrir, delimitar e caracterizar o depósito mineral;
Engenheiros de Minas: Planejar e executar a lavra com segurança e eficiência econômica;
Engenheiros Químicos e Metalurgistas: Transformar o minério bruto em produto comercial (concentrado de terras raras);
Engenheiros e Gestores Ambientais: Garantir conformidade legal e minimizar impactos ambientais;
Técnicos em Mineração: Executar a operação prática da lavra (apoio à perfuração, controle de qualidade do minério em campo);
Operadores de Máquinas pesadas: Executar a operação prática da lavra (operação de escavadeiras e caminhões fora de estrada e controle de carregamento);
Especialistas em Logística e Comércio Exterior: Garantir que o produto chegue ao cliente internacional com eficiência (vender e entregar com competitividade).
Geração de empregos
Seguindo as etapas citadas, Lívia destacou as áreas que devem gerar mais empregos em curto, médio e longo prazo. Segundo ela, a curto prazo é a vez da pesquisa mineral e implantação das minas. Essa será a fase com mais trabalhadores empregados, porém, de curta duração.
“Terá maior contratação de geólogos, técnicos de mineração e de sondagem, topógrafos, engenheiros de minas, engenheiros ambientais, operadores de equipamentos, mão de obra temporária e alta demanda por serviços locais”, disse Lívia.
A médio prazo será a vez do beneficiamento e da separação química, também chamada de hidrometalurgia. Lívia explica que essa fase exige uma qualificação técnica elevada, como engenheiros químicos, técnicos industriais, operadores de planta e especialistas em controle de qualidade.
Finalmente, a longo prazo, vem a industrialização de ímãs, componentes e tecnologia; é onde está o maior potencial de emprego e renda, com maior impacto econômico e social, disse a gerente de projetos.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/s/6/UE9CnbTpu4awLjHIpV3A/serra-verde-2-.jpg)
Trabalhadores que atuam na extração de terras raras, em Minaçu — Foto: Divulgação/Serra Verde
O que é a “terra rara”
Lívia Parreira explica que o termo “terras raras” se refere a um grupo específico de 17 elementos químicos e precisa de duas características fundamentais: possuir uma concentração desses elementos e que seja economicamente viável para a extração deles.
Segundo a especialista, os elementos não são raros e chegam a ser bastante abundantes na crosta terrestre. Ela separa as duas características em dispersão e dificuldade de separação.
“Eles quase nunca se concentram em um único lugar em grandes quantidades. Estão muito espalhados e misturados de forma diluída no solo. Esses 17 elementos são quimicamente quase ‘gêmeos’. Por conta dessa semelhança extrema, o processo industrial para separar um do outro é incrivelmente complexo e caro”, explica.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/x/q/1SrjZ0RByH9Co70Q0DwA/terrarara1.jpg)
Depósito de Minaçu e tecnologia
De acordo com Lívia, Minaçu, no norte do estado, é o único município a extrair terras raras hoje no Brasil. Na cidade existe um depósito de argila iônica, com concentrações significativas de ETRs leves (Neodímio (Nd) e Praseodímio (Pr)) e ETRs pesadas (Disprósio (Dy) e Térbio (Tb)), muito valorizados no mercado global por suas aplicações em tecnologia e energia limpa.
O secretário Joel de Sant’Anna citou que a primeira mina que exporta a terra rara para a China é da mineradora Serra Verde. Segundo ele, os Estados Unidos aprovaram investimento de mais de 400 milhões de dólares para a segunda etapa de expansão de Minaçu e mais 5 milhões de dólares para investir em pesquisa em Nova Roma.
“É a primeira cidade do ocidente que exporta já esse mineral para a China há três anos”, enfatiza.
O secretário disse ainda que a Serra Verde investiu em tecnologia e já consegue extrair e transformar a terra em um pó concentrado, porque a diferença é a tecnologia. Outra empresa, a Aclara, está com o processo de licenciamento também.
“A tecnologia foi desenvolvida aqui. O investimento é americano, mas foi todo desenvolvido aqui, até por brasileiros. Outros estados ainda não conseguiram fazer o investimento para desenvolver a tecnologia”, afirma.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/D/j/FDPqN1QUSBU8m1wSCkMg/serra-verde-1-.jpg)
Mineração Serra Verde é considerada a única operação fora da Ásia a produzir, em escala, os quatro elementos magnéticos essenciais de terras raras — Foto: Divulgação/Serra Verde
Empresas instaladas ou com projetos futuros:
Weichai (Itumbiara): empresa chinesa que fabrica motores elétricos e utiliza os minerais extraídos no estado.
CAOA (Anápolis): já utiliza baterias em seus carros híbridos.
Mitsubishi (Catalão): já produz veículos com tecnologia híbrida no estado.
Changan e GAC: Montadoras chinesas que, segundo o secretário, estão vindo para Goiás.
Parceiros Internacionais: grupos do Japão, Índia e novos grupos dos Estados Unidos para o desenvolvimento de baterias e motores.
Minaçu tem depósito de terras raras em argila iônica — Foto: Arte/g1
Mineradora Aclara
A empresa Aclara atualmente está nas cidades de Nova Roma, onde fica o depósito mineral de terras raras e desenvolve o Projeto Carina, que reduz riscos e aumenta eficiência ambiental; Goiânia, com um escritório corporativo; e em Aparecida de Goiânia, com uma planta piloto, uma espécie de laboratório para testar, validar e aprimorar a tecnologia proprietária de processamento.
O principal uso das terras raras pesadas está em ímãs permanentes, componentes críticos para tecnologias de eletromobilidade, robótica e alta tecnologia. Estão presentes em motores de veículos elétricos, geradores de turbinas eólicas, aplicações em eletrônicos, equipamentos industriais e outras soluções tecnológicas que exigem alto desempenho magnético.
Segundo a empresa, o processo de extração dos minérios tem a remoção controlada da vegetação e a extração das argilas que contêm as terras raras, sem uso de explosivos. As argilas depois passam por um processo de separação e remoção de impurezas onde o produto tem cerca de 96% de pureza e depois reutiliza a água. “Trata-se de um processo de baixo risco técnico, sustentável, sem barragens de rejeitos e com forte controle ambiental”, disse a empresa.
Projeto Carina, da Aclara Resources, em Goiás — Foto: Divulgação/Aclara Resources


