ONG investigada por suspeita de usar dinheiro de contrato com Prefeitura de SP em filme sobre Bolsonaro nega desvio e diz que contratou perícia

ONG investigada por suspeita de usar dinheiro de contrato com Prefeitura de SP em filme sobre Bolsonaro nega desvio e diz que contratou perícia

 

Polícia Civil apura se recursos de um contrato de R$ 108 milhões por ano firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil foram desviados para financiar a produção do filme Dark Horse, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

 

Por Rodrigo Rodrigues, g1 SP e TV Globo — São Paulo

02/06/2026 18h32  Atualizado há 23 horas

 

Instituto Conhecer Brasil (ICB), alvo de uma investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre suposto desvio de recursos públicos para financiar a produção do filme “Dark Horse”, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), afirmou que não houve irregularidades na aplicação dos recursos e informou que contratou uma perícia e uma auditoria especializadas para acompanhar o caso.

 

Em nota enviada ao g1 após a operação realizada na segunda-feira (1º), a entidade afirmou que recebeu e cumpriu integralmente o mandado judicial expedido pela Justiça, colaborando de forma “transparente, respeitosa e imediata” com os procedimentos conduzidos pelas autoridades.

 

O ICB também declarou que está à disposição para fornecer documentos, informações e esclarecimentos considerados necessários para a apuração dos fatos.

 

“A equipe jurídica do Instituto contratou perícia e auditoria especializada para oferecer suporte técnico e jurídico a todo o processo de investigação”, afirmou a entidade (leia íntegra abaixo).

 

A Polícia Civil de São Paulo investiga se recursos de um contrato de R$ 108 milhões por ano firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o ICB foram utilizados de forma irregular para financiar a produção do filme.

 

A apuração foi aberta a pedido do Ministério Público de São Paulo. Na segunda (1º), a Justiça autorizou o cumprimento de mandados de busca e apreensão em sete endereços ligados ao instituto e também na sede da Secretaria Municipal de Tecnologia e Inovação da Prefeitura.

 

Durante a operação, os policiais apreenderam computadores, celulares, documentos e notas fiscais.

 

De acordo com o inquérito, o contrato previa a instalação de 5 mil pontos de internet wi-fi gratuita em bairros da periferia da capital paulista, mas apenas 3,2 mil teriam sido instalados. Ao menos três aditivos foram assinados mudando a data de entrega total do serviço.

 

Entre os elementos analisados pelos investigadores está um suposto direcionamento da concorrência pública. Segundo o inquérito, apenas uma entidade participou da licitação: o Instituto Conhecer Brasil. A investigação aponta ainda que a organização não teria experiência técnica na área de telecomunicações, requisito relacionado ao objeto do contrato.

 

A investigação também questiona os valores contratados. Segundo o juiz, o ICB foi selecionado para prestar o serviço cobrando cerca de R$ 1.800 por mês por ponto de wi-fi instalado.

 

O inquérito compara os valores aos praticados anteriormente pela Prodam, empresa de tecnologia da própria prefeitura, que teria cobrado R$ 230 pela instalação e R$ 306 pela manutenção de cada ponto.

 

Os investigadores também apontam que, dos 5 mil pontos de internet previstos no contrato, apenas 3.200 teriam sido instalados. O prazo de entrega foi prorrogado por meio de três aditivos.

 

Outra suspeita é a de pagamento antecipado por serviços que não teriam sido prestados, em um valor total de R$ 26 milhões.

 

O inquérito ainda aponta possível utilização de notas fiscais irregulares para justificar despesas na prestação de contas de R$ 4,7 milhões.

 

ricardo nunes

 

Suspeita de financiamento de filme

 

A empresária Karina Ferreira da Gama, dona da ONG Instituto Conhecer Brasil e da empresa que produz o filme sobre Jair Bolsonaro — Foto: Montagem/g1/Reprodução/Redes Sociais

 

O Instituto Conhecer Brasil é uma organização social sem fins lucrativos ligada à empresária Karina Ferreira da Gama, que também é proprietária da produtora cinematográfica Go Up, responsável pela produção do filme “Dark Horse”.

 

O g1 identificou que o ICB e a produtora funcionam oficialmente no mesmo endereço, na cidade de São Paulo.

 

Segundo o inquérito policial, há indícios de desvio de finalidade e confusão patrimonial envolvendo Karina Ferreira da Gama e a empresa Go Up.

 

Ligações com Mário Frias

 

A reportagem do g1 apurou ainda que, em 2022, Karina Ferreira da Gama prestou serviços de consultoria para a campanha do atual deputado federal Mário Frias (PL-SP).

 

A empresa responsável pela consultoria foi a Go7 Assessoria, que também funciona no mesmo endereço do Instituto Conhecer Brasil e da produtora Go Up.

 

Antes de assumir o mandato de deputado federal, Mário Frias foi secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro.

 

Já na Câmara dos Deputados, Frias destinou cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil.

 

Esse repasse também é alvo de investigação no Supremo Tribunal Federal (STF), sob suspeita de falta de transparência que dificultaria a rastreabilidade dos recursos.

 

Em visita a Belo Horizonte, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, foi questionado sobre a investigação.

 

“São duas coisas distintas. O que eu estou sabendo é que a Prefeitura de São Paulo anunciou uma investigação sobre um contrato antigo de prestação de serviço de internet e absolutamente nada a ver com o filme”, afirmou.

 

O senador disse ainda que espera que a apuração não seja utilizada para atingir a produção cinematográfica.

 

“Eu não quero crer que a gente está sendo vítima mais uma vez de uma pescaria probatória. Investiguem, vejam que não tem nada e vida que segue. Se for isso, sem problemas”, declarou.

 

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