Dinheiro dos aposentados bancou mansão e fazendas ligadas a vice-líder de Lula, aponta PF
Por Aline Rechmann
Por Juliet Manfrin
05/08/2026 às 21:15
As investigações da Polícia Federal sobre o senador Weverton Rocha (PDT-MA), investigado no esquema de desvio de aposentadorias do INSS, descrevem uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro que envolve empresas, postos de combustíveis, imóveis, propriedades rurais, contas de familiares e até aeronaves privadas usadas para ocultar patrimônio e movimentar recursos.
Na última terça (4), familiares e supostos sócios de Weverton, que é vice-líder do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), foram alvo de buscas e apreensões determinadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação teve origem na análise de celular atribuído ao senador, cujos dados foram confrontados com elementos obtidos na Operação Sem Desconto.
Segundo a representação da PF, o núcleo da estrutura era coordenado pelo advogado Willer Tomaz, apontado como responsável por disponibilizar uma espécie de “hub financeiro, patrimonial e logístico” aos beneficiários do esquema.
Para os investigadores, a estrutura reunia empresas, operadores financeiros, aeronaves, imóveis e pessoas físicas capazes de movimentar recursos e dificultar a identificação do beneficiário final.
Segundo a PF, a apuração revelou um fluxo financeiro complexo, marcado pela circulação de recursos entre pessoas físicas e jurídicas, uso recorrente de dinheiro em espécie, aquisição de bens em nome de terceiros e investimentos em imóveis, veículos, fazendas, aeronaves, empresas de radiodifusão e outros ativos de elevado valor.
Entre os imóveis, chama a atenção uma mansão, localizada em área nobre de Brasília, que teria sido negociada pelo advogado Willer Tomaz, com participação do senador Weverton Rocha.
A polícia afirma que os recursos eram fragmentados e circulavam por empresas, contas familiares, operadores financeiros, contratos de mútuo (contratos de empréstimo) e depósitos em espécie para ocultar sua origem e titularidade.
Conforme fontes a par da investigação ouvidas pela Gazeta do Povo, a PF estruturou a apuração como um grande mapeamento patrimonial, financeiro e logístico. O objetivo era cruzar informações dessas diferentes frentes para reconstruir o caminho do dinheiro e identificar todos os integrantes da estrutura, inclusive pessoas que, segundo essas fontes, ainda não foram alvo das medidas judiciais cumpridas nesta fase da investigação.
Em nota divulgada após a deflagração da operação, o senador Weverton afirmou que a investigação é resultado de “interesses políticos” e negou qualquer irregularidade.
Segundo o parlamentar, a operação teve como alvo familiares e pessoas próximas, e não ele diretamente. Weverton afirmou que confia na Justiça e sustentou que as medidas não têm relação com a prática de crimes, mas com uma tentativa de desgastá-lo politicamente.
O senador também declarou que todos os bens e atividades de sua família têm origem lícita e que sua defesa terá acesso aos autos para demonstrar a legalidade das operações investigadas. Segundo a nota, ele permanece “tranquilo” e afirmou que os fatos serão esclarecidos no curso da investigação.
Por meio de nota, o advogado Willer Tomaz afirmou que “jamais teve qualquer envolvimento com os fatos apurados no âmbito da Operação Sem Desconto e que não figura como investigado no referido procedimento da Polícia Federal”.
Ele também ressaltou que “a disponibilização da aeronave ao senador Weverton Rocha ocorreu em caráter estritamente pessoal e amistoso, sem qualquer vínculo com os fatos investigados pela operação”.
Quanto à mansão mencionada na investigação, Willer Tomaz afirmou que, em sua atuação empresarial, é proprietário de uma imobiliária sediada em Brasília, que possui, administra e negocia diversos imóveis na capital federal. “As atividades da empresa são realizadas regularmente, não havendo qualquer irregularidade nas operações citadas”, conclui a nota.

Senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo Lula, é apontado como beneficiário de um esquema de lavagem de dinheiro (Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado)
PF aponta advogado como articulador da estrutura
Na avaliação da Polícia Federal, Willer Tomaz exercia função central na engrenagem financeira. Segundo a decisão, ele disponibilizava empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, operadores financeiros e interlocutores políticos para dar suporte às operações atribuídas ao grupo investigado.
A representação afirma que sua estrutura funcionava como um “hub financeiro, patrimonial e logístico”, expressão reproduzida pelo ministro André Mendonça ao analisar o pedido da PF.
Conforme fontes ouvidas pela reportagem, a investigação também apura a utilização de empresas contratadas por prefeituras e outras pessoas jurídicas que, segundo a hipótese investigativa, teriam servido para movimentar recursos dentro da estrutura atribuída ao grupo.
Ao autorizar as buscas, o ministro André Mendonça afirmou que a investigação apresenta indícios que vão além de conjecturas e citou a correlação entre comunicações, movimentações financeiras, transporte aéreo de numerário e documentação societária.
O ministro ressaltou, contudo, que a análise realizada nesta fase do processo é preliminar e não representa conclusão sobre eventual responsabilidade criminal dos investigados, servindo apenas para justificar o avanço das diligências.
Weverton teria participado de reuniões para compra de mansão no Lago Sul
Um dos principais eixos da investigação envolve a aquisição de uma mansão localizada no Lago Sul, área nobre de Brasília.
Segundo a decisão judicial, a Polícia Federal identificou mensagens indicando que Weverton Rocha participou pessoalmente das tratativas para aquisição do imóvel, ocasião em que foram discutidos um sinal de R$ 4 milhões e um saldo de R$ 2 milhões. A compra acabou sendo formalizada por uma empresa ligada a Willer Tomaz pelo valor de R$ 6 milhões.
O envolvimento de Weverton com a negociação da residência reforça, na avaliação da polícia, a hipótese de que o imóvel teria sido adquirido em benefício do parlamentar. Apesar do valor do imóvel apontado na investigação, a reportagem apurou que imóveis localizados na mesma região podem chegar a valer R$ 30 milhões.
Postos geridos por filha do senador em “situação financeira crítica”
Outro núcleo considerado estratégico pela investigação envolve dois postos de combustíveis. A PF aponta que uma pessoa da família do senador administrava operacionalmente esses postos, organizava pagamentos, providenciava transferências bancárias e encaminhava contratos após movimentações milionárias entre empresas ligadas ao grupo.
Para os investigadores, esses contratos podem representar a tentativa de conferir justificativa contábil posterior às operações financeiras.
Ainda de acordo com a representação da PF, embora os estabelecimentos fossem descritos em conversas interceptadas como empresas em “situação financeira crítica”, suas contas teriam sido utilizadas para comprar propriedades rurais, terrenos e maquinário agrícola de alto valor.
Também eram realizados repasses para empresas ligadas ao núcleo patrimonial investigado e efetuadas transferências a terceiros que seriam indicados por Weverton Rocha. A polícia também afirma que parte dos recursos retornava ao próprio senador.
Fontes da PF ouvidas pela reportagem afirmam que a investigação também identificou mais de um empréstimo milionário contratado somente após a entrada dos recursos nas contas das empresas e de integrantes da família.
Segundo essas fontes, a hipótese investigativa é de que os contratos buscavam conferir aparência formal de legalidade a recursos cuja origem seria considerada suspeita pelos investigadores.
Voos entre Brasília e Maranhão transportavam dinheiro em espécie
De acordo com fontes com conhecimento da investigação, a PF trabalha com a hipótese de que havia uma rota aérea utilizada para transportar grandes quantias em dinheiro vivo entre Brasília e o Maranhão.
Segundo essas fontes, em alguns deslocamentos os valores ultrapassariam R$ 1 milhão por voo. A decisão do ministro André Mendonça faz referência a planilhas que registravam entregas em espécie de R$ 500 mil, R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão, acompanhadas de referências a aeronaves privadas, pilotos e deslocamentos entre Brasília e o Maranhão.
O documento também menciona a apreensão posterior de R$ 1 milhão em espécie com uma pessoa que, segundo a investigação, destinaria o dinheiro a um ex-assessor de Weverton Rocha.
Empresa de comunicação teria sido usada para ocultação de patrimônio
Empresas de radiodifusão ligadas à família do senador também teriam sido usadas no esquema. A investigação aponta que outra familiar do parlamentar atuava como a administradora informal dos interesses de radiodifusão da família. Suas funções incluíam a gestão de despesas, equipamentos, regularizações, certidões e documentos junto a cartórios, além de prestar contas diretamente a Weverton Rocha.
O documento destaca uma empresa de comunicação como uma sociedade estratégica situada entre o núcleo familiar de Weverton e a estrutura de Willer Tomaz. Essa empresa tem familiares do senador como sócios e conexões pretéritas com o núcleo Tomaz, ainda de acordo com a Polícia Federal.
A PF apontou que, a partir de fevereiro de 2024, a movimentação financeira entre os núcleos investigados passou a circular de forma mais visível por contas relacionadas à empresa de comunicação.
Segundo fontes ouvidas pela reportagem, os investigadores buscam esclarecer se a empresa de comunicação foi utilizada tanto para imobilização patrimonial quanto para promoção política.
Operadora financeira tinha interlocução direta com Weverton e Tomaz
A Polícia Federal aponta que a mulher identificada nos contatos do senador Weverton Rocha como “Financeiro WT” teria desempenhado um papel fundamental no plano operacional da suposta organização criminosa.
Segundo a investigação, ela seria responsável por controlar saldos, executar pagamentos, registrar parcelas, organizar entregas de dinheiro em espécie e manter interlocução simultânea com Weverton Rocha e Willer Tomaz.
A PF afirma que mensagens mostram a mulher consultando o advogado antes de determinadas operações e atendendo a solicitações feitas diretamente pelo senador.
A decisão também registra diálogos nos quais Weverton teria solicitado um repasse de R$ 500 mil. Em seguida, a mulher informa que o valor já havia sido creditado na conta da uma pessoa da família do senador, a qual recebeu cerca de R$ 11 milhões provenientes de empresas ligadas a Willer Tomaz durante o período analisado, de acordo com a representação da PF.
Em nota, o advogado Willer Tomaz afirmou a pessoa que recebeu o dinheiro é advogada atua há vários anos como associada do escritório de advocacia que leva seu nome. “Todos os valores a ela repassados decorrem da prestação de serviços advocatícios, estão devidamente documentados e foram regularmente declarados”, completou.
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