Relatório diz que JK foi morto pela ditadura militar, e não vítima de acidente

Relatório diz que JK foi morto pela ditadura militar, e não vítima de acidente

 

Informação foi revelada inicialmente pelo jornal ‘Folha de S.Paulo’ e confirmada pela TV Globo. Versão de parecer da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos ainda precisa ser aprovada para se tornar a oficial.

 

Por Leonardo MilagresLuis Gurgel — Belo Horizonte

 

08/05/2026 16h56  Atualizado há um dia

 

Um relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) diz que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi morto pela ditadura militar, e não vítima de um acidente de carro, como concluído à época e, posteriormente, reafirmado pela Comissão Nacional da Verdade. A versão do parecer, entretanto, ainda precisa ser aprovada em votação do colegiado para se tornar a oficial.

 

A informação foi revelada inicialmente pelo jornal “Folha de S.Paulo” e confirmada pela TV Globo nesta sexta-feira (8). Elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, relatora do caso na comissão, o documento tem mais de cinco mil páginas. O texto está sendo examinado pelos demais conselheiros do colegiado para ser votado.

 

🔎 Juscelino Kubitschek morreu em agosto de 1976, na Via Dutra, quando viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro.

 

🔎 Presidente entre 1956 e 1961, ficou conhecido por transferir a capital para Brasília e impulsionar a industrialização com o plano “50 anos em 5”. Depois, foi eleito senador, mas teve os direitos políticos cassados após o golpe de 1964 (leia mais abaixo).

 

No último 1º de abril, o parecer chegou a ser apresentado na 7ª Reunião Ordinária da comissão para conhecimento e apreciação dos integrantes. Devido ao extenso volume de anexos e da necessidade de avisar familiares de JK sobre o conteúdo das apurações, foi definido que a votação ocorreria depois do contato com as famílias, o que ainda não tem data para acontecer.

 

“Ressalta-se que o relatório em questão segue em análise pelos membros da Comissão e ainda não foi submetido à votação”, disse, em nota, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

 

Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil de 1956 a 1961 — Foto: Arquivo público/DF

Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil de 1956 a 1961 — Foto: Arquivo público/DF

 

‘Passo importante para a verdade histórica’, diz neta

 

Em nota, a neta do ex-presidente, Anna Christina Kubitschek, presidente do Memorial JK, informou ter recebido nesta sexta-feira o ofício da comissão e disse que tomará conhecimento.

 

“A reabertura do debate sobre a morte de meu avô Juscelino representa um passo importante para a verdade histórica no Brasil”, afirmou Anna.

 

“Uma semana antes da tragédia, estava ao lado de minha mãe Márcia, no Rio de Janeiro, quando recebemos a notícia da morte de meu avô em um acidente automobilístico, o que, incrivelmente, ocorreria uma semana depois. Portanto, os elementos reunidos ao longo dos anos indicam que o fato não pode ser analisado isoladamente do contexto político da época.”

 

Juscelino Kubitschek no último ano de seu governo, em 1961 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO

 

Possível reviravolta

 

A Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos foi instituída por lei em 1995, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, como um órgão de Estado. Atualmente, ela conta com o apoio técnico-administrativo do Ministério dos Direitos Humanos.

 

A finalidade da CEMDP é reconhecer pessoas mortas ou desaparecidas devido a atividades políticas entre 1961 e 1988, buscar a localização dos corpos e emitir pareceres sobre os requerimentos apresentados por familiares das vítimas do regime militar no Brasil.

 

No caso de Juscelino Kubitschek, a versão oficial vigente é a de que o ex-presidente foi vítima de um acidente automobilístico (leia mais abaixo). No entanto, as circunstâncias da morte do político foram motivo de controvérsias nos últimos anos.

 

A ditadura informou que se tratou de uma batida, afirmando que o carro havia sido atingido por um ônibus durante uma tentativa de ultrapassagem.

 

Já as comissões estaduais da Verdade de São Paulo e de Minas Gerais, além da comissão municipal paulistana, defenderam a hipótese de atentado político.

 

“O pedido de reabertura da investigação do caso JK foi protocolado logo após a reinstalação da CEMDP, por solicitação encaminhada por Gilberto Natalini, ex-presidente da Comissão da Verdade Municipal de São Paulo, e Ivo Patarra”, informou, em nota, a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

 

Segundo a CEMDP, desde novembro de 2024, a relatora Maria Cecília Adão vinha trabalhando de forma articulada com pesquisadores do tema para oferecer um relatório sobre o caso. O documento foi confeccionado a partir de elementos públicos, como um inquérito do Ministério Público Federal (MPF), de 2019 (leia mais abaixo).

 

Juscelino Kubitschek: Opala destruído após colisão que matou ex-presidente, em 1976

Acidente com carro de JK em 1976 — Foto: MPF/Reprodução

 

Morte controversa

 

Juscelino Kubitschek morreu em agosto de 1976, na Rodovia Presidente Dutra, quando viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro.

 

O acidente ocorreu na altura da cidade de Resende (RJ). Conforme registros, o veículo Chevrolet Opala, que levava o ex-presidente e o motorista dele, Geraldo Ribeiro, invadiu a pista contrária e bateu contra um caminhão, após ter sido atingido por um ônibus. Nenhum dos dois sobreviveu à colisão.

 

Ao longo dos anos, diversas teorias sugeriram que o episódio poderia ter sido um atentado político, devido ao contexto da ditadura militar no Brasil e da Operação Condor — uma ação coordenada entre regimes ditatoriais do Cone Sul e apoiada pelos Estados Unidos, entre 1975 e 1983, para perseguir e eliminar lideranças regionais.

 

Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade descartou que os militares tiveram participação na morte do ex-presidente. No entanto, em fevereiro de 2025, o governo Lula decidiu reabrir o caso, com base em um laudo do engenheiro e perito Sergio Ejzenberg, contratado pelo Ministério Público Federal e concluído em 2019.

 

O parecer do especialista contestou análises anteriores e rejeitou a hipótese de que o acidente tenha sido provocado por uma colisão entre o Opala e um ônibus antes de o veículo se chocar contra uma carreta (veja vídeo abaixo). A perícia de Ejzenberg foi uma das referências da historiadora Maria Cecília Adão para produzir o relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

 

Quem foi JK

 

Juscelino Kubitscheck ficou conhecido pela transferência da capital do país para Brasília e pelo projeto de modernização e pela aceleração do processo de industrialização, conhecido como “50 anos em 5”.

 

Após deixar a presidência da República, foi eleito senador e tomou posse já em 1961. Com a eclosão do golpe militar de 1964, JK teve os direitos políticos cassados.

 

Imagem de arquivo mostra o então presidente JK e o então vice-presidente João Goulart durante a primeira missa de Brasília, em 3 de maio de 1957 — Foto: Revista Brasília da Novacap / Arquivo Público do DF

Imagem de arquivo mostra o então presidente JK e o então vice-presidente João Goulart durante a primeira missa de Brasília, em 3 de maio de 1957 — Foto: Revista Brasília da Novacap / Arquivo Público do DF

 

Pode ser uma imagem de texto que diz "MORREU NA DITADURA InfoMoney Relatório contradiz versão de acidente e diz que JK foi assassinado pelo governo 羅康="

Tropas militares avançam em direção ao Rio de Janeiro em 1º de abril de 1964 — Foto: Arquivo O Globo

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